April 5, 2011

Gerações

Posted in Uncategorized at 8:53 pm by sagito

Ao contrário das restantes entradas deste blog, sinto que esta história deva ser contada em português…

Hoje na rua tive a oportunidade de ouvir uma conversa entre dois senhores, certamente com não muito mais de 55 anos, que falavam sobre política. “É certo que estamos na crise mais grave de sempre”, dizia um… “A culpa é desta juventude ignorante, estúpida e irresponsável que só quer discotecas e copos, só pensa em comprar coisas e depois deixa as coisas neste estado! Não sabem poupar estes jovens bestas de agora.”, respondeu o outro.

Serve este post para relembrar todos os que pensam assim, que os da minha geração e os mais jovens que eu, a chamada “juventude”, acabam de entrar para o mundo de trabalho. Mundo esse no qual muitos de nós não têm oportunidade de receber pelo esforço que dedicam e pelo trabalho que fazem. No qual muitos de nós passaram anos e anos a estudar, para ter um curso superior, para poderem ir para as caixas dos supermercados. No qual muitos veem-se obrigados a sair do país onde nasceram para encontrar trabalho e estabilidade em outros países onde haja bom senso. No qual toda a gente lhes tira a esperança e diz: “Isto só vai piorar”. A todos vocês que pensam como o senhor que hoje falava na rua, quero-vos lembrar: A culpa é toda vossa!

Porque a minha geração só agora está a contactar com o mundo de trabalho. Aquele mundo que vocês destruiram. Os da vossa geração, não os da minha. Somos nós, e não vocês, que vamos levar com as consequências do vosso comportamento depravado e inconsequente. Porque somos nós que neste momento estamos a tentar remendar os erros cometidos pela geração dos nossos pais. E porque é que temos que ser nós a corrigir os vossos erros, resultantes dos vossos delírios de grandeza, quando devia ser o contrário? Não deviam ser os pais a corrigir e educar os filhos? Porquê fazer esta situação mais grave e difícil do que já é? Porque é que temos que ser nós, a geração “rasca e besta, que só vive do consumismo, que não sabe poupar” a resolver não só o problema que vocês criaram mas também a lutar por um futuro que vocês destruiram?

E atenção… Não pretendo falar das poucas pessoas da geração dos nossos pais que ainda mantêm o bom senso. Considero que tive uma educação muito boa e agradeço por nunca me ter faltado nada. Conheço muita gente dessa faixa etária que merece todo o meu respeito e que sei que se solidarizam com a situação actual em que estamos. Mais ainda, que pretendem ajudar-nos a resolve-la. Falo apenas aqui dos imbecis que trabalharam durante meia dúzia de anos em empresas públicas ou pseudo-públicas, que tiraram a reforma antecipada muito antes de todos os outros que têm que trabalhar uma vida inteira para conseguirem pôr comida na mesa para os filhos, que recebem pensões altissímas (a roçar o escandaloso) do estado… E que ainda assim, passam o dia todo sentados a dizer que o governo não presta, a criar powerpoints e encher o nosso email de spam revolucionário, a dizer que a geração dos jovens de hoje não vale nada, que não têm pena nenhuma de nós e que não temos solução.

A todos vocês volto a relembrar: A culpa é toda vossa! Só vossa e de mais ninguém. Vocês são os culpados pela fome dos vossos filhos e mesmo assim viram a cara e dizem: “Não quero saber, a culpa é tua!”. Nunca será possível mudar nada até que vocês abram os olhos e vejam o poço para onde nos atiraram. Assumam as culpas! Falam de responsabilidade, mas não a têm, não a querem usar. Atiram-nos com medo à cara, tiram-nos a esperança… Será que são vocês que têm medo de abrir os olhos e ver que destruíram o futuro dos que se seguiam?

E agora esperam o quê? Que vos agradeça? Obrigado então… Obrigado por nos terem mostrado que afinal a vida é ainda mais complicada do que parecia. Obrigado por nos fazerem ter que crescer tão rápido. Mas sobretudo, obrigado por nos voltarem a dar a sensação de que somos capazes e de que se queremos lutar um futuro, não poderemos contar convosco, mas apenas connosco. Obrigado sobretudo por nos fazerem sentir que fomos traídos e que vamos saber responder a isso. Obrigado por nos fazerem sentir que somos capazes de vos ensinar o que é trabalhar a sério, governar, ter sonhos e querer ter uma vida. Obrigado então, se é isso que esperavam ouvir.

Sem mais de momento, e a todos vocês que pensam isto, tais como os senhores na rua e que nos puseram aqui, deixo-vos o meu mais profundo nojo…

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2 Comments »

  1. Abel Maio said,

    Bem, é preciso lembrar que é muito mais fácil culpar os outros que admitir culpas. E estando a culpar as pessoas da mesma geração é como se estar a culpar a si próprio. Por isso é melhor culpar a geração que está só agora a começar a trabalhar e a ir para um mundo já corrupto.

    Mas proponho que nós, geração culpada pelo estado da nação, deitemos as culpas para a geração que está neste preciso momento no ventre das respectivas mães e que são totais sangue-sugas dos nutrientes que as suas progenitoras ingerem.

    Sabes Tiago, o melhor é ignorar. Fazendo a nossa parte e sabendo que estamos, de facto, a fazer o melhor, deixemos quem não quer ver às escuras.

    Para terminar, seguindo a lógica desse senhor, se a culpa é “nossa” por andarmos nas discotecas e a beber e etc, vamos analisar isto um pouco. Nós não ganhamos, não temos rendimentos. Quem nos dá? Bem, os nossos papa e mama. Logo, se nós fazemos isso tudo e estamos a arruinar Portugal, a culpa deverá ser de quem nos dá o dinheiro para afundarmos este belíssimo rectângulo. =P Logo a culpa é mais dele que dá dinheiro ao filho para a “night” que nosso que não temos dinheiro. Nós pedimos. Eles dão. Culpa é de quem dá.

  2. sagito said,

    O grande problema está nestas pessoas… O orgulho desenfreado e estúpido de quem só olha para o umbigo e se esquece de que há pessoas à volta… Serão assim tão imbecis? É impossível ignorar quando nos vão ao bolso e toda a gente fica calada… Acho indecente ouvir conversas destas na rua, quando deviam era estar preocupados com os filhos, filhos dos amigos, com as gerações que eles destruíram… O que me irrita é eles ainda falarem com esta leveza e atirarem-nos com as culpas.

    Nem quero saber de política, nunca quis… Nem disso, nem de economia. Felizmente nunca me faltou nada, e espero, se um dia tiver filhos, que eu seja capaz de fazer com que nunca lhes falte nada também. Aliás, neste momento, qualquer um dos candidatos principais às eleições me mete bastante nojo. E eu estou sinceramente farto de politicos profissionais com sede de poder e um orgulho tão grande neles mesmos que os torna cegos a tudo o resto…

    Sou da sincera opinião que é a nossa geração que tem o direito e o dever de fazer algo para mudar isto, dê para onde der. Temos sido um povo demasiado permissivo e idiota. Roubam-nos e está sempre tudo bem! Acho que já chega disto…


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